A história do projeto

O menino mais rico

Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
São só 24 volumes encadernados
em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança.
Compra assim mesmo, papai, eu cresço logo.
(…)

Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde. Sou
o menino mais rico destas redondezas.

(Biblioteca Verde, Carlos Drummond de Andrade)

Pensar, imaginar… Crescer… Conhecimento, aventura… Curiosidade, inteligência, história… Escrever, aprender… Descobrir, viajar… Liberdade… Quantas palavras além dessas, lembradas de imediato por pequenos estudantes da área rural de Brasília, poderiam ser citadas para traduzir a importância e o alcance de uma biblioteca?

“Ai, palavras, ai, palavras,/que estranha potência, a vossa! Todo o sentido da vida/principia à vossa porta”, disse uma das escritoras mais queridas dos brasileiros, Cecília Meireles, no antológico poema Romanceiro da Inconfidência, um potente registro da Inconfidência Mineira. Mas o que responderia Cecília? Uma só palavra seria capaz de sintetizar o poder de uma biblioteca?

Talvez a resposta não esteja ainda nos vocabulários ou essa palavra nem se possa criar, como nos versos em que um dos maiores poetas brasileiros busca significar o mundo. “Já não quero dicionários/consultados em vão./ Quero só a palavra/que nunca estará neles/nem se pode inventar./Que resumiria o mundo/e o substituiria. Mais sol do que o sol,/dentro do qual vivêssemos/todos em comunhão,/mudos,/saboreando-a”, diz Carlos Drummond de Andrade, no poema A Palavra.

Dono de um incomparável talento para traduzir o sentido da existência, Drummond confessou ao jornalista e escritor Geneton Moraes Neto, no início de agosto de 1985, quinze dias antes de partir deste “mundo, mundo, vasto mundo”, que fez de sua poesia “um sofá de analista”. Na rica conversa ao telefone que acabou se transformando em um precioso livro – O Dossiê Drummond –, o tímido poeta mineiro que adotou a capital carioca para viver a maior parte dos seus 84 anos lamentou a falta de “estímulo intelectual” às novas gerações e o baixo consumo de livros no país. E deixou escapar que conseguiu na vida o maior prêmio que poderia desejar: “dizer coisas que mexiam por dentro e buliam comigo”. As coisas que buliam com o poeta também afloram fortemente nos relatos de crianças e adultos que compartilham o conhecimento colocado à altura de suas mãos nas prateleiras das 180 bibliotecas construídas em todos os cantos do Distrito Federal por um grupo de voluntários que leva adiante o projeto social Bibliotecas do Saber. Como se estivessem saindo do “sofá de analista” de Drummond, esses ávidos leitores pouco divergem ao descrever as sensações de viajar por um mundo que não imaginavam existir. “Mas leio, leio. Em filosofias/tropeço e caio, cavalgo de novo/meu verde livro, em cavalarias/me perco, medievo; em contos, poemas/me vejo viver./Como te devoro, verde pastagem./Ou antes carruagem de fugir de mim e me trazer de volta/à casa a qualquer hora num fechar/de páginas?” (Biblioteca Verde).

O roteiro para as incríveis “viagens pelo mundo” descritas com empolgação pelos pequenos usuários das bibliotecas do Saber na área rural começou a ser traçado em 2007, num encontro entre os empresários Antonio José Matias de Sousa, então diretor operacional da Rede Gasol, e Carmen Ganzelevitch Gramacho, que na época comandava o Conselho da Federação das Associações Comerciais do Distrito Federal. Eles trocavam ideias sobre a situação das empresas em Brasília e as dificuldades que enfrentavam para contratar colaboradores com capacidades básicas de escrita. O paraibano que chegou à capital da República aos dezesseis anos de idade perguntou então à espanhola nascida no Marrocos e criada em terras paulistanas se esse problema não seria decorrente da falta de leitura e de estímulo intelectual – o mesmo que Drummond havia destacado em sua última entrevista. Experientes no trato com os candidatos a uma vaga nas empresas, ambos concluíram que sim. E decidiram, naquele momento, se unir em torno do projeto de levar bibliotecas aos moradores das regiões que mais carecem dessa ferramenta do saber no Distrito Federal. A meta inicial era modesta. “Pensamos em montar ou revitalizar vinte bibliotecas, que seriam abastecidas com livros doados pela própria população. Para fazer a propaganda, espalharíamos cartazes na rede de postos de gasolina do DF”, conta Matias. A logomarca que mais tarde seria criada para o projeto – uma criança abrindo um livro para descortinar um mundo a ser conhecido –, refletiria Drummond nos versos de Biblioteca Verde: “Tudo que sei é ela que me ensina./O que saberei, o que não saberei/nunca,/está na Biblioteca em verde murmúrio/de flauta percalina eternamente.” Mas os trabalhos não poderiam começar sem a presença de um profissional especializado no conhecimento e seleção dos livros. “E agora, José?”, indagaria Drummond. A solução, revela Matias, veio com a ajuda de Elsinho Cascão, primogênito do fundador da rede de combustíveis que abraçou o projeto, Élson Cascão. O jovem empresário pediu ajuda à professora de biblioteconomia da Universidade de Brasília Simone Bastos, que era responsável pela Biblioteca do Senado e atraiu para o grupo a então presidente da Associação dos Bibliotecários do Distrito Federal, Iza Antunes. Era a peça que faltava para fazer a ideia acontecer. “Carmen e Iza formam o coração do projeto. Sem elas nada disso teria sido realizado, não estaríamos comemorando a entrega de tantas bibliotecas em comunidades que ainda não haviam recebido essa atenção.”

Iza Antunes chegou na hora certa. A campanha nos postos de gasolina superou as expectativas e em apenas trinta dias o volume de livros doados abarrotou um dos galpões da rede de combustíveis. “A adesão da comunidade surpreendeu. Recebemos cerca de quatrocentos mil livros somente naquele primeiro mês. Sem Iza no comando técnico e o grupo de voluntários que Estelina Pina, bibliotecária e funcionária do Senado Federal, ajudou a treinar, seria impossível selecionar tudo isso”, lembra Carmen Gramacho.

Só te conheço de retrato,
não te conheço de verdade,
mas teu sangue bole em meu sangue
e sem saber te vivo em mim
e sem saber vou copiando
tuas imprevistas maneiras
(Antepassado, Carlos Drummond de Andrade)

Sem saber te vivo em mim

O desafio de criar bibliotecas para levar o direito à leitura a quem mais precisa está enraizado na trajetória da família de Carmen, que dedicou parte de sua vida para resgatar a história do avô materno, Plácido Enrique Vargas Corpas. Professor da Escola Normal de Granada, ele entrou no rol dos quatro mil cidadãos espanhóis fuzilados na cidade pelas forças golpistas do general Francisco Franco, em 1936, junto com conterrâneos como o poeta e dramaturgo Federico Garcia Lorca, uma das primeiras vítimas do ditador. Naquele ano, no Brasil, o educador Anísio Teixeira lançava o livro Educação para a Democracia, para explicar os fundamentos de suas propostas de socializar a cultura, desenvolver pesquisas e implantar um ensino público de qualidade para todos.

O “crime” que levou o professor ao paredão da morte um mês antes de completar 53 anos foi o mesmo que fez Anísio ser perseguido pela ditadura de Getúlio Vargas, durante o Estado Novo, e pelo golpe militar de 1964 – defender a utopia de transformar a educação pública em ferramenta de justiça social e desenvolvimento. Placido se alinhou aos ideais republicanos de uma Espanha que saiu da monarquia, em 1931, com metade da população submersa no analfabetismo e no atraso. Os alvos dos algozes que o tiraram das salas de aula eram a jovem República espanhola que trabalhava intensamente para colocar em prática propostas inovadoras e democráticas de crescimento.

Placido Corpas não conheceu a neta que se dedicaria a espalhar bibliotecas por Brasília. Carmen veio ao mundo no Marrocos, no dia em que os EUA jogaram a bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima, no Japão, matando impiedosamente mais de 140 mil civis, e não tinha completado um mês de vida quando os japoneses assinaram a rendição que marcou o fim da II Guerra Mundial, em 2 de setembro de 1945. Os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira enviados para lutar na Itália ao lado dos aliados contra os nazifascistas marcaram a volta para casa, no mesmo ano, com um grande desfile no Rio de Janeiro, onde foram recebidos com alegria pelos cariocas.

Do outro lado do Atlântico, a Europa, devastada pelo longo período da guerra que tirou a vida de mais de 50 milhões de pessoas, saía dos escombros para mergulhar na dura tarefa da reconstrução. As dificuldades do período pós-guerra levaram parte da família a buscar o recomeço em outras terras. Em 1953, aos oito anos de idade, a menina desembarca no Brasil com os pais e os irmãos, carregando na bagagem, sem saber, a gigantesca dívida da ditadura franquista que lhe roubou o direito ao convívio com o avô. A pequena espanhola chega ao país de adoção no ano em que o presidente Getúlio Vargas, eleito com promessas nacionalistas em 1950, cria a Petrobras para proteger o petróleo brasileiro das garras do capitalismo estrangeiro. A seca estende a fome a mais de um milhão de nordestinos, drama que um trabalhador do açude de Pataxó resume em poucas palavras no livro Aos trancos e barrancos, do antropólogo Darcy Ribeiro: “Isto aqui é uma matança de pobres, o feijão a doze cruzeiros no barracão e salário de quinze cruzeiros para oito filhos.” Enquanto isso Cecília Meireles encarna, segundo Darcy, “os últimos mineiros iracundos” e lança o belíssimo Romanceiro da Inconfidência, onde escreve que “a liberdade das almas,/ai!  com letras se elabora”.

As novidades que se sucediam na rotina da família no país desconhecido não afastaram a curiosidade de Carmen em torno das histórias dos parentes que ficaram na Espanha. Mas o interesse também não impediu que ela crescesse sem descobrir por que o avô havia sido assassinado pelo sangrento regime do ditador espanhol. Ouvia apenas que ele havia sido fuzilado devido a um “erro lamentável” e que isso “já estava esquecido”. “Meu pai, às vezes, tentava contar o que havia acontecido, mas minha mãe não deixava. Acabei entendendo que era porque ela sofria com as lembranças.” Tempos depois, Carmen concluiu que a solução seria revolver as raízes além mar. De volta à Espanha 35 anos após ser abraçada pelas terras bandeirantes, no entanto, ela esbarrou na mesma explicação lacônica sobre a morte do avô durante visitas aos tios que ainda moravam em Granada. A resposta que tanto procurava só chegaria oito viagens depois. Com a ajuda do marido, o economista e pesquisador Amilcar Gramacho, ela se embrenhou em meio às pastas de mais de quatro décadas de história guardadas nos arquivos públicos e jornais espanhóis, e procurou compatriotas que sobreviveram à guerra civil.

O faro de escritor de Amilcar apontou o ponto de partida para o meticuloso trabalho de pesquisa que teriam pela frente – o grandioso acervo da Biblioteca Nacional da Espanha, que foi criada pelo rei Felipe V, em 1712, em Madri, e se transformou em uma das mais importantes da Europa. As primeiras pistas estavam entre os 25 milhões de publicações, manuscritos, documentos oficiais, desenhos, partituras, fotografias, mapas e outras preciosidades que atraem estudiosos e turistas de todas as partes do mundo para a capital espanhola. “Havia mais de mais de quatro mil livros somente sobre a Guerra Civil e os acontecimentos em Granada, onde as forças do general Franco chegaram primeiro, e o nome de Placido era mencionado nos relatos”, conta ele.

As informações protegidas em meio aos milhões de livros que dividem espaço com esculturas e pinturas dos gênios da arte espanhola no majestoso prédio do Paseo de Recoletos puxaram os fios do silêncio que atormentava a família. “Descobrimos, nos livros, que havia muitos arquivos espalhados pelo país com registros daquela época. Um deles estava abrigado no Ministério da Educação espanhol, que mantinha os históricos de vida completos de todos os professores do ensino público.”

As informações protegidas em meio aos milhões de livros que dividem espaço com esculturas e pinturas dos gênios da arte espanhola no majestoso prédio do Paseo de Recoletos puxaram os fios do silêncio que atormentava a família. “Descobrimos, nos livros, que havia muitos arquivos espalhados pelo país com registros daquela época. Um deles estava abrigado no Ministério da Educação espanhol, que mantinha os históricos de vida completos de todos os professores do ensino público.”

Comparando a vasta documentação, eles se depararam com os métodos criminosos do regime de Franco. Para justificar o fuzilamento, diz Amilcar, o governo abriu processos contra Placido depois de assassinar o professor. “Outro abuso que cometiam era confiscar os bens das famílias das vítimas. O ditador responsabilizava os opositores pelos custos da guerra civil que ele havia alimentado, como uma das formas de angariar recursos.” Enquanto buscavam a verdade, Carmen e Amilcar descobriram que o silêncio dos familiares era a marca do sentimento compartilhado por uma geração traumatizada pela guerra entre irmãos que deixou mais de um milhão de mortos. A herança dessa destruição encobria a dor com as vidas e os ideais sepultados pelos fuzis franquistas.

Atraído pelas perspectivas de avanços vislumbradas nas propostas da Republica de los Maestros (República dos Professores), Placido Enrique havia entrado, com o filho mais velho, em uma das missões pedagógicas criadas pelo novo governo para levar leitura, arte, cinema, teatro e outras ações culturais à grande massa de cidadãos analfabetos da área rural que o regime anterior mantinha à margem da educação.

A Republica de los Maestros sabia que o sucesso das missões dependeria de um decisivo investimento na valorização dos professores. As primeiras medidas foram para garantir melhores salários e condições adequadas de trabalho. Ao mesmo tempo, milhares de escolas e bibliotecas começaram a ser erguidas pelo país, parte do sonho de eliminar a desigualdade que pesava principalmente sobre a população do campo.

Mas a grande maioria de espanhóis cujas armas, como as de Placido, eram os livros, nem teve tempo de comemorar as conquistas, esmagadas pelo golpe militar do general Franco. Apoiado pelo governo nazista do alemão Adolf Hitler e pelos fascistas da Itália dominada por Benito Mussolini, que enviaram tropas e armamentos para sufocar a esperança de igualdade e justiça social dos republicanos, o ditador soterrou o esforço dos educadores sob os escombros de uma guerra civil que se alastrou até 1939 e o manteve à frente do governo até sua morte, em 1975.

A quebra do silêncio fez de Carmen a primeira espanhola residente no Brasil a obter reparação pelos crimes da Guerra Civil que a genialidade do artista andaluz Pablo Picasso estampou em Guernica, o seu quadro mais famoso. No documento oficial guardado pela família como relíquia, o governo da Espanha reconhece que “D. Placido Enrique Vargas Corpas tem direito a obter a reparação moral (…) mediante a qual a democracia espanhola honra aqueles que injustamente padeceram perseguição ou violência durante a guerra civil e a ditadura.”

O resgate da história do avô que morreu defendendo a democratização do saber fortaleceu o compromisso de Carmen com o projeto de expandir o conhecimento em comunidades sem acesso a uma biblioteca. “Meu avô via nas missões pedagógicas e no programa republicano a solução para o desenvolvimento da Espanha, que tinha um índice tão alto de analfabetismo. Hoje, também vejo que o crescimento do Brasil depende de muito investimento na educação e de incentivo à leitura”, compara.

Pesquisa de 2015 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revela uma desigualdade muito alta para os padrões ostentados por Brasília. Enquanto registra a maior renda per capita do Brasil, de R$ 2.252, a capital da República ainda tem 3,5% da sua população formada de analfabetos. E 28,8% dos moradores não têm sequer o ensino fundamental completo.

A luz que me abriu os olhos
Para a dor dos deserdados
E os feridos de injustiça,
Não me permite fechá-los
Nunca mais, enquanto viva.
(Já faz tempo que escolhi,
Thiago de Mello)

O verbo amar

A arrecadação recorde de livros no primeiro mês do projeto Biblioteca do Saber foi o sinal da largada de uma sucessão de inaugurações que em nove anos fez a meta inicial de vinte unidades saltar para cem. Com uma equipe de trinta bibliotecários voluntários, Iza Antunes entrou em campo para selecionar todo o material. O mutirão permitiu que pouco tempo depois os alunos do Centro de Ensino Fundamental do Lago Oeste escolhessem o nome da Biblioteca Recanto da Leitura e ajudassem a descerrar a placa da primeira unidade do projeto.

Era também a primeira biblioteca a chegar ao Núcleo Rural Lago Oeste, uma área de 35 quilômetros quadrados destinada a pequenos produtores. Situado ao longo das margens da DF 001 que fazem divisa com o Parque Nacional de Brasília, o núcleo é vizinho da Reserva Biológica da Contagem e da Área de Proteção Ambiental do Cafuringa, no lado norte, onde a vista alcança até Planaltina e as distantes montanhas do entorno goiano.

Carmen se emociona ao recordar a manhã ensolarada do sábado em que a equipe do projeto foi recebida pelos estudantes caprichosamente preparados para a cerimônia. “Foi uma inauguração de muita beleza, um dia muito feliz. O professor Carlos Mota estava na porta da escola, nos esperando, com os alunos. Ele era bem alto, tinha os olhos muito vivos, nos recebeu com muito carinho. Foi um momento único, porque ele incentivava muito os alunos a escrever, dedicava-se à poesia e levou um grupo de crianças para declamar os poemas que elas mesmas haviam feito.”

Educador apaixonado, Mota investia em projetos de leitura e artes, e dizia a todos que iria transformar o CEF na melhor escola do Brasil e da América Latina. Mas a violência não permitiu. O olhar expressivo que tanto chamou a atenção de Carmen e a proposta de oferecer à comunidade uma escola modelo seriam apagados a tiros na madrugada de 20 de junho de 2008 por traficantes de drogas que agiam na região e ameaçavam alunos e professores. Quatro dias depois, a escola passou a se chamar Centro de Ensino Fundamental Professor Carlos Mota, em homenagem ao educador poeta que amava a profissão e se empenhava em melhorar a qualidade de ensino com ações inovadoras.

“O que pode uma criatura senão/entre criaturas, amar?”, disse Drummond, no poema Amar. A força do verbo expandiu os contornos de um mapa afetivo que ultrapassou as fronteiras do Distrito Federal. Parte dos livros doados diariamente pela gente solidária de Brasília destinou-se a levar o mundo traduzido nas letras a leitores das cidades de Formosa, Valparaíso, Novo Gama e Santo Antônio do Descoberto, no entorno goiano. O projeto viajou também para cidades mais distantes, com bibliotecas entregues em comunidades do Rio de Janeiro, de Cascavel, no Ceará, e Davinópolis, no Maranhão. Em parceria com a Marinha do Brasil, eles também chegaram às mãos de populações ribeirinhas da Amazônia e do Pantanal, nas Barcas do Saber, instaladas nos navios de assistência hospitalar que levam os profissionais de saúde das forças navais para atuar nas duas regiões. Em oito anos de atividades, as equipes de voluntários treinados em cursos da Associação Brasileira de Biblioteconomia patrocinados pelo projeto avaliaram e selecionaram 16,4 milhões de livros. Na triagem, cerca de 30% das publicações foram consideradas inadequadas e descartadas. A qualidade dos 70% restantes, no entanto, permitiu que se abrisse uma nova rota de saída e quarenta Estantes do Saber foram montadas em salas de atendimento especializado da rede pública a alunos com altas habilidades, na faixa dos sete aos dezessete anos. As prateleiras reforçadas com livros especialmente selecionados dão suporte a atividades extras de leitura, literatura, redação, informática, artes, robótica e artes cênicas com esses estudantes. Durante a separação da primeira leva de doações, muitas surpresas estavam reservadas à equipe. Ninguém imaginava que daquele mutirão nasceria um acervo inesperado. Os voluntários descobriram centenas de fotografias, cartões-postais, anotações pessoais, certidões e outros papeis esquecidos pelos antigos leitores entre as folhas dos livros. No meio dos milhares de publicações, surgiram até documentos oficiais assinados por Getúlio Vargas, deixando no ar uma pergunta: e agora, o que fazer com tudo isso? Sem identificação do dono, era impossível devolver.

Carmen mandou guardar tudo. “Tempos depois tivemos a ideia de fazer uma exposição, como forma de agradecer aos brasilienses pelas doações.” Todos aqueles “achados e perdidos”, finalmente, puderam “ser devolvidos” aos doadores por meio da bela exposição Obrigado, Brasília!. Para comemorar a inauguração da centésima biblioteca, a mostra circulou na Feira do Livro, no espaço de exposições da Biblioteca do Senado e no shopping Pátio Brasil. Em seguida foi instalada na sede do projeto, na 406 sul, para visitação permanente.

No diário que escreveu de 2007 a 2016 e onde documentou o andamento do projeto (leia a partir da p. 288), Carmen registra alguns dos “momentos muito especiais” em que esses achados vieram à tona. Ainda no início do processo de arrecadação e seleção dos livros, em 2007, ela escreveu: “As meninas voluntárias encontraram fotos de pessoas sorridentes, sem nome nem dedicatória. Estavam entre as páginas de um livro de história do Brasil datado de 1952. Pena que não houvesse algo escrito que pudesse identificar as fotos… Pouco tempo depois, numa de minhas visitas matinais ao Centro de Triagem, deparei-me com um grande volume de caixas bem na entrada. No intuito de afastá-las para conseguir passar, abaixe-me e vi um pequenino livro de poesia, todo marcado com declarações de amor. Era a letra de um menino chamado Raimundo: ‘Rosinha amo você como a mim mesmo. Quero que você espere eu crescer pois sei que agora você não me quer porque sou pequeno como este livro’.”

Dois anos depois, em 2009, já era enorme a quantidade de documentos e fotos encontrados junto aos livros, conforme Carmen registrou no diário: “Quantas histórias, de amor e desamor, encontros e desencontros, sinais do tempo nos papeis já amarelados. Telegramas de condolências pelo passamento de um parente e também de felicitações por um nascimento. Extratos bancários, olerites, recibos, receitas médicas. Dinheiro velho. Certificados de conclusão de cursos. Disco de Guilherme Arantes com as música Pedacinhos e Tão blue. Certidão de nascimento de Karine, que veio ao mundo em 1989. Fotografias, muitas, de pessoas felizes, algumas em branco em preto, retratos de crianças de ontem, casamentos, aniversários, festas de confraternização. Muitas fotos três por quatro de crianças e adultos. Cartões postais lindos, de várias cidades no mundo, enviados a familiares e amigos queridos, contando sobre viagens. Alguns chamam a atenção pelo ano: 1959.”