O homem que semeia livros

Perfil – Antonio José Matias de Sousa

O homem que semeia livros

[Participei de quase todas as inaugurações de bibliotecas, só perdi duas, e olha que foram mais de 180.

Às vezes passo as imagens dessas cerimônias no celular, para recordar, e me dá uma vontade grande de chorar”

“A maneira de dar canto às palavras o menino aprendeu com os passarinhos.”
(Caderno de aprendiz, Manoel de Barros)

No ambiente clean do seu escritório em um simpático conjunto comercial da EPIA Sul, em Brasília, a marca registrada do empresário Antônio Matias é exposta nos dois únicos quadros pendurados na parede branca. Dispostos lado a lado, eles chamam a atenção de quem entra na sala silenciosa e organizada. Com fotos da família, o da direita traz imagens de quase quatro décadas de seu casamento com a relações públicas Isa Matias e do crescimento dos três filhos e quatro netos. No da esquerda, o homem que chegou em 1958 ao grandioso canteiro de obras onde Juscelino Kubistcheck plantava a nova capital da República aparece em uma série de flashes de inaugurações do projeto Bibliotecas do Saber, cercado por estudantes, gente das comunidades, das escolas e pela equipe de voluntários que o acompanha desde que o projeto foi criado, em 2007.

Diante das marcas afetivas, o empresário se comove ao recordar o dia em que entregou a biblioteca nº 1, no Núcleo Rural Lago Oeste, localizado numa região de reservas ambientais em Sobradinho, entre o Parque Nacional de Brasília e os chapadões onde a vista se perde no encontro das vizinhas terras goianas com o infinito. A empolgação dos pequenos alunos na hora de abrir a cerimônia com o Hino Nacional é um eco permanente na sua memória. “Fiquei emocionado quando entrei e vi tudo arrumado, as estantes e mesas novinhas e coloridas, os computadores. Participei de quase todas as inaugurações de bibliotecas, tive essa felicidade, só perdi duas, e olha que foram mais de 180”, orgulha-se. “As crianças fazem apresentações e na voz delas tudo fica muito mais bonito. Acabei pegando um amor muito grande por esse trabalho.”

Os registros da própria infância de menino pobre do interior da Paraíba se misturam à emoção das recordações de cada biblioteca. Terceiro filho entre os dezenove que a mãe trouxe ao mundo, Matias cresceu em meio a muitas necessidades e à perda de seis irmãos, ainda pequenos. “Meus pais eram muito trabalhadores e se viravam como podiam para que não passássemos fome”, relembra. “Mas tem tanto tempo que já esqueci.” Aquela era a época das populares congas, que a “escadinha” de crianças da casa pegava somente para ir à escola. O resto do dia era de pés descalços para não gastar o calçado que deveria passar de um para outro, assim como as roupas usadas pelos treze irmãos que sobreviveram.

A vida era difícil, não havia luz elétrica nem água encanada, mas a roça, para a meninada, se traduzia em estripulias e liberdade. “Se fosse escolher a minha infância, ia querer a mesma que tive”, diz Matias. “A gente andava a cavalo e à noite sentava numa mesa muito grande que tinha na cozinha da nossa casa pra comer rapadura com o cuscus que minha mãe fazia.” Outro “divertimento” era ir para o grupo escolar. “E lá não tinha biblioteca, a gente nem sabia o que era isso.” Mas o curso primário significava o fim de linha naquele interior sertanejo e o menino que já “trabalhava pesado como gente grande” alimentava muitos sonhos para o futuro.

Quando completou dezesseis anos, ele decidiu partir para o Planalto Central do país, mesmo contra a vontade dos pais. “Foi uma confusão lá em casa, eles não queriam deixar, diziam: ‘Você vai pra lá pra lavar latrina’. Mas eu respondia que isso não tinha problema, que se precisasse, lavava, que ia vencer na vida.” Matias já sabia muito bem aonde iria desembarcar. Desde os dez anos de idade, lia os jornais velhos que o dono do armazém guardava durante o mês para ele e estava inteirado da situação do país e das oportunidades que brotavam na nova capital. Sabia de cor a famosa promessa de JK, de fazer o Brasil crescer cinquenta anos em cinco. “Eu lia tudo e entendia. Desde cedo já trabalhava como homem, não tinha moleza não.”

“Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história da minha vida,
passo a ser o severino
que em vossa presença emigra.”
(Morte e Vida Severina,
João Cabral de Melo Neto)

Brasília, 1958

A nova capital fervilhava em obras quando ele finalmente desceu de um dos paus-de-arara que levavam migrantes do Nordeste para o Centro-Oeste, depois de dezesseis dias de poeira pelas estradas de terra que pareciam intermináveis entre a pequena cidade de Coremas e Brasília. “Era aquele caminhão que fazia o papel de ônibus, cheio de bancos de madeira, coberto de lona. Não tinha asfalto, era muito buraco e a gente chegava com os joelhos ralados de tanto bater no banco da frente.” O empresário faz graça com as lembranças. “Se me colocassem num negócio desses hoje, eu morria, mas naquela época era garoto, tinha só dezesseis anos, aguentava tudo”, brinca.

Esforçado e comunicativo, o adolescente paraibano não teve tempo de sentir o cansaço da viagem. Conseguiu o seu primeiro endereço no acampamento da construtora Pederneira, na área que deu origem à Vila Planalto, tombada em 1988 como patrimônio histórico de Brasília. Contratado como apontador, ele passou a ganhar “algo em torno de doze mil cruzeiros”, pouco mais de um salário mínimo. Lá tinha cantina, lugar para dormir e a rotina de ficar o dia inteiro na portaria para controlar e anotar tudo o que entrava e saía. Até que um dia ele acompanhou um colega na visita a um posto de gasolina e lhe ofereceram uma vaga de frentista. A partir dali, tudo mudou.

“O salário era bem menor, uns oito mil cruzeiros. Mas eu gostava muito de carro e daquela movimentação de pessoas, de conversar, e me sentia muito preso na portaria, naquela vida de apontador, achava entediante.” Matias não pensou duas vezes. Apesar da enxurrada de críticas, “porque ia ganhar muito menos”, decidiu aceitar. Mas no novo emprego não havia acampamento nem cantina. Para conseguir guardar dinheiro, ele dormia em qualquer canto do posto. E, sempre observador, acabou virando uma espécie de faz-tudo, resolvendo todo tipo de problema que aparecia.

Um ano depois, no dia da inauguração de Brasília, o garoto que aos poucos ganhava a confiança dos patrões foi transferido para o posto da quadra 306 sul. “Havia uma caixa d’água enorme vazia e pedi pra morar lá.” Ele improvisou uma porta de madeirite e passou a dormir ali, até se instalar num pequeno cômodo com banheiro que construíram no local. Poupava cada centavo. “Comida, eu nem pensava em procurar um restaurante, porque não ia sobrar nada do salário, eu tinha que guardar. Mas nunca passei fome. Tive muitas oportunidades. Gostava de conversar, de ajudar, e conhecia todo mundo.”

Nunca faltou, também, quem o ajudasse. “Quantas vezes o Pereira Lira, que era ministro do TCU, parava ali e me levava pra almoçar na casa dele. O Elcio Cascão (dono do posto) fazia a Semana da Aviação no posto, todo ano. O ministro da Aeronáutica chegou um dia e me disse: ‘A partir de hoje você vai ter o almoço garantido’. Ele tinha uma equipe que entregava as refeições para os oficiais na quadra e mandou me incluir. Era tanta comida que eu dividia com todo mundo no trabalho.” O posto da 306 ficava no meio das primeiras quadras da cidade e havia virado uma espécie de ponto de apoio para todos. Todos se conheciam e se ajudavam.

“A 308 [quadra] era de funcionários do Banco do Brasil, a 306 era do IAPB. Brasília era aquilo ali, cinco quadras e as casinhas da W3 Sul. Ali moravam os ministros e empregados que eles traziam também”, lembra o empresário. “Era uma solidão danada, todo mundo reclamava, havia uma carência muito grande, e por isso paravam pra conversar, faziam amizade.” Acostumado com a família grande e a presença protetora da mãe, Matias sentia falta do aconchego que deixara para trás. Mas a ausência do carinho familiar era recompensada com as novas amizades e a generosidade dos pioneiros.

As relações eram de confiança. “No posto sempre tinha muito dinheiro e cheque. Todo mundo trocava dinheiro ali. O Arnon de Mello (senador alagoano, pai do ex-presidente Collor) dizia: ‘Antonio, vou abastecer, mais tarde minha filha vem também. Você vai anotando e dá dinheiro pra minha secretária que ela tem que fazer umas compras’. E à noite ele passava e pagava tudo”, lembra Matias. “Era essa a convivência que a gente tinha.” Naquele tempo, as pessoas carregavam sem problemas malotes de dinheiro para pagar os operários. E ninguém poderia imaginar que cinco décadas depois Brasília estaria em sétimo lugar no ranking das unidades da Federação mais violentas do Brasil, tentando se proteger atrás de grades que jamais fariam parte do universo de Lucio Costa e Oscar Niemeyer.

Os olhos do empresário brilham a cada boa lembrança daquela época em que a história da cidade apenas começava e as autoridades circulavam à vontade no meio do povo. “Conheci o Israel Pinheiro [presidente da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, a Novacap, responsável pela construção da cidade], pessoa simples, tratava todo mundo igual, era o homem que resolvia tudo, todo mundo gostava dele.” Quem também encantou o jovem pioneiro pela simplicidade foi o presidente João Goulart, o Jango, que governou o país de setembro de 1961, após a renúncia de Jânio Quadros, a março de 1964, quando foi derrubado pelo golpe militar.

“A dona Maria Tereza [mulher de Jango] andava num Impala rabo de peixe e o motorista abastecia lá no posto. Um dia vi o carro parado na parte de cima da rodoviária. Fui falar com ele e quando cheguei perto vi que ela e o presidente estavam ali também. Ela era uma mulher linda.” O sorriso de Matias se ilumina com a lembrança. “Os dois haviam descido do carro, estavam admirando a vista da Esplanada, o Congresso lá no fundo. O motorista me apresentou e fiquei uns quinze minutos ali, conversando e admirando a vista com eles. Era um casal muito simples e simpático.”

Quatro anos depois de desembarcar em Brasília pela primeira vez, Matias voltou à sua terra natal, um município de dezoito mil habitantes, no Vale do Piancó paraibano, e começou a levar os irmãos para estudar na capital e garantir um futuro melhor. “Trouxe seis irmãos. Todo mundo se formou, estudou em colégios bons, fez curso superior. E depois todos fizeram concursos e passaram a ganhar muito bem”, diz ele. “Quando um se destacava e conseguia se manter sozinho, era um grande passo. Era essa a matemática que eu aplicava. Me orgulho muito disso.”

“Frutos, dão-os as árvores que vivem.
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.”
(Ricardo Reis/Fernando Pessoa)

Lições da infância

O esforço daqueles anos difíceis vem à memória do empresário a cada Hino Nacional que abre a cerimônia de entrega de uma nova unidade do projeto Bibliotecas do Saber. “Fico pensando: ‘será que sou eu mesmo que estou fazendo isso aqui, aquele menino barrigudo que andava descalço pelas ruas de terra lá no interior do Nordeste, ajudando a dar uma oportunidade de leitura e de conhecimento para crianças aqui na capital da República?’ Tinha hora que eu achava que era um sonho. Mas é um trabalho. E precisa ser feito. Escola sem biblioteca é uma tremenda covardia com as crianças. A gente sabe que se o governo quiser, faz.”

“Ele faz muito, é hiper observador e adora ajudar as pessoas, a família”, revela a mulher, Isa. “Uma das qualidades que mais admiro nele é a perseverança, a determinação. Quando quer uma coisa, vai lá e faz”, diz ela, que o define como “um companheiro maravilhoso, desprendido, que tem uma capacidade impressionante de cuidar de tudo ao mesmo tempo”. Um desses cuidados está na cidade natal, onde ele instalou poços e rede de água para a família e os vizinhos e mantém uma escola municipal com cerca de oitenta alunos. “Ele dá os uniformes, material escolar, alimentação das crianças.” O menino que ia para a escola de conga guarda gratidão pelo carinho que recebeu da centenária “professora do bê-a-bá”, dona Maria Raimunda da Silva, e faz questão de cuidar bem dela. “Ela completou cem anos em 2014”, diz Matias, que todo mês deposita um salário mínimo para a mulher que lhe ensinou a desvendar os mistérios e a importância das letras. “Ele mantém ainda outras três idosas em Coremas. Quando uma delas morre, os moradores colocam outra no lugar para receber a ajuda”, conta Isa. “E é bacana que ele faz tudo isso com muito gosto, com carinho, fica numa felicidade enorme.”

Matias reconhece que tudo o que empreende é fruto, também, das lições que aprendeu na infância e na juventude. “Conheci todos os lados da vida. Dinheiro não é tudo não.” Do lado acolhedor, ele valoriza as fortes lembranças de quem lhe deu atenção e apoio naquele duro começo em Brasília. Gente como “o dr. Adroaldo, pai do Arnaldo Cunha Campos [empresário pioneiro]”, que ia frequentemente ao posto. “Ele trabalhava no Banco do Brasil e a gente sempre conversava. Ele me deu muitas ideias, as conversas com ele eram aulas para a vida, que nunca esqueci.”

As aulas sobre a importância de investir em projetos sociais, o paraibano empreendedor teve com o dono do posto, Elcio Cascão, e a mulher dele, Alice. O empresário devota um amor de filho ao casal de pioneiros, que morava na Segunda Avenida, no Núcleo Bandeirante, quando ele, ainda adolescente, foi admitido como frentista. “Eles me acolheram, são muito importantes para mim, considero como se fossem meu pai e minha mãe. Estou com eles há 57 anos. O que o Elcio fez por mim só um pai faria, seria assim como se hoje eu pegasse um bombeiro de obra e colocasse como meu sócio”, compara.

“A primeira sociedade com ele foi seis anos depois que cheguei, era uma loja de lubrificantes. Peguei todas as economias que tinha conseguido juntar e entrei com 10%, mas não assinava nada”, conta Matias. “Mas também era assim, eu trabalhava 24 horas por dia, fazia tudo e fazia com garra. Tinha liderança. Eu era menino, mas sempre tive a cabeça no lugar. Trabalhava muito e fui ganhando a confiança deles.” Os negócios foram se expandindo e, com eles, os projetos sociais. A ideia era aproveitar a existência dos postos como ponto de referência em Brasília.

“Começamos patrocinando corridas de carro. Depois fizemos campanhas de livros, de agasalhos, de arrecadação de alimentos para vítimas de enchentes e de secas. Mandamos dezesseis carretas de alimentos para o Nordeste”, enumera Matias. “Isso demonstra a credibilidade que a gente tem.” As Bibliotecas do Saber surgiram depois que a população aderiu à campanha de arrecadação de livros que levantou um número recorde de doações. Desde que entregou a unidade número um, no Lago Oeste, o projeto se multiplicou rapidamente, sem nenhuma propaganda além dos cartazes colados nos postos de gasolina.

Tudo aconteceu no boca a boca. “Um professor falava pra outro, uma pessoa comentava, e começaram a nos procurar, pedindo. Com isso chegamos a tantas escolas, ao sistema prisional, aos menores infratores.” O presídio feminino foi um dos lugares que mais comoveram o empresário. “A gente ia conversar com aquelas mulheres e descobria que a maioria estava ali por causa do marido traficante. Fizemos duas bibliotecas lá.”

Em frente ao quadro de fotos das inaugurações, Matias embarga a voz quando relembra a alegria das crianças da área rural que lhe perguntavam, empolgadas, “você é o governador?”, quando ele chegava com a equipe do projeto. “Às vezes, quando viajo, passo as imagens dessas cerimônias no celular, para recordar, e me dá uma vontade grande de chorar.” E qual palavra poderia resumir tudo isso? “É amor. Sem dúvida! E vontade de fazer. Querendo, a gente faz. Cada um pode fazer a sua parte. E sempre repito que se cada pessoa fizer um pouco, por menor que seja, o mundo vai melhorar.”