Iza Antunes, bibliotecária

Depoimento – Iza Antunes, bibliotecária,
coordenadora técnica das Bibliotecas do Saber

“O projeto me beneficiou, me fez uma pessoa melhor”

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
Não conhece nem mi nem fá
mas inclina o corpo para cá e para lá.
(…)

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
(A bailarina, Cecília Meireles)
Depoimento – Iza Antunes, bibliotecária,
coordenadora técnica das Bibliotecas do Saber
“O projeto me beneficiou,
me fez uma pessoa melhor”

“Na hora que as crianças da Escola Classe Cariru começaram a encenar o poema da menina que queria ser bailarina, da Cecília Meireles, na inauguração da Biblioteca da Família, eu não consegui segurar a emoção. Foi um dos momentos mais marcantes do meu trabalho como voluntária no projeto Bibliotecas do Saber, participar daquela cena tão especial, os alunos da roça, que não tinham nenhum acesso à cultura, fazendo uma peça de teatro com aquela poesia, ver os pais saindo da lavoura para assistir, bater palmas. Sou carioca, vim com minha família para Brasília, em 1971. Amo demais esta cidade, que me proporcionou o orgulho de ter três netos brasilienses e depois me deu outra emoção muito forte, que é trabalhar nesse projeto. O que me tocou mais foi poder fazer o trabalho voluntário dentro da minha área, a biblioteconomia.

Sempre tive muita preocupação com os nossos profissionais, com a capacitação, a melhoria das condições de trabalho. Pude atuar para beneficiar a classe, como presidente da Associação dos Bibliotecários do DF, por três gestões, e sabia que, trabalhando pelos bibliotecários, indiretamente a sociedade também é beneficiada. Mas sonhava fazer mais pelas comunidades, me preocupava com a situação das bibliotecas públicas, pois nem todas têm o tratamento técnico de que precisam. E questionava de que forma poderíamos contribuir para melhorar esses espaços.

A oportunidade surgiu quando a Gasol começou a campanha Doe Livros, em 15 de agosto de 2007. Espalharam cartazes pelos postos de gasolina e as doações surpreenderam, eram milhares e milhares. A Simone Bastos, que era da Biblioteca do Senado, me chamou e disse que tínhamos que movimentar os bibliotecários para ajudar a selecionar e catalogar os livros doados. Vi que meu sonho poderia ser realizado, porque a associação iria trabalhar diretamente com a sociedade. Levamos os bibliotecários para uma reunião com o Antonio Matias. Ele propôs ‘montar bibliotecas onde não tem’. No decorrer do trabalho, percebemos que o mais importante seria revitalizar e fortalecer as já existentes, e que era preciso ter certeza de que haveria pessoas para cuidar da biblioteca com técnica e interesse.

Comecei a me sentir uma pessoa mais útil a partir daí. O projeto me beneficiou pessoalmente, porque estou fazendo algo que vai ajudar mais pessoas, e não apenas uma classe, é a comunidade inteira, o operário, a dona de casa, o estudante. Todo dia bendigo o projeto, rendo o meu agradecimento, porque pude fazer alguma coisa que era para o bem, não só para a educação, mas para a vida. Acho que encerrei muito bem a minha gestão na ABDF, dando a oportunidade para que os bibliotecários do DF ficassem registrados na história da implantação do projeto.

Quando saí daquela primeira reunião, não tinha a menor ideia de que o projeto iria se desenvolver por oito anos. A meta inicial era revitalizar vinte bibliotecas, mas foram criadas 180. É muito recompensador dar oportunidade às pessoas de poder usar um espaço bem iluminado, agradável, limpo. Vi muitas bibliotecas largadas, empoeiradas, sujas, desvalorizadas. Ambientes apáticos, que não favorecem em nada a leitura, pelo contrário. A leitura sempre foi relegada pelos governantes, eles não têm ideia do que uma biblioteca pode oferecer.

Ela é o mundo da cultura, e o maior exemplo é a Biblioteca Demonstrativa de Brasília, que fazia ações culturais. Uma verdadeira biblioteca tem que ser bonita, cuidada por pessoas que gostam de aprender, e não por pessoas que atendem sem saber lidar com livros, não dão valor. O que vemos é muita desinformação sobre os recursos disponíveis, as normas, os cursos, as qualificações, a capacitação. Quando tivemos bibliotecários cuidando dessa área, havia cursos para treinar os profissionais. É preciso ter conhecimentos importantes, como os pequenos reparos que salvam um livro, por exemplo.

Em uma das bibliotecas que visitamos encontramos um menino sentadinho no chão, em um canto, fazendo deveres. Ele contou que todos os dias ficava ali para estudar, porque em casa não conseguia, não tinha espaço e os irmãos não deixavam. E disse que às vezes passava a manhã inteira procurando um livro e não encontrava. Isso é a falta de técnica, de organização, e acontece em várias bibliotecas públicas do Brasil inteiro. Temos mesmo que ajudar muito, dar cadeira, mesa, orientação técnica. Na Escola Parque da Asa Norte, criamos até espaços lúdicos de leitura no jardim. O sonho é entregar a biblioteca organizada, em condições de se manter, e informatizada.

Já ganhei comendas, título de cidadã honorária, medalha Honra ao Mérito Bibliotecário, aqui em Brasília. Mas nada é tão gratificante como a emoção de participar da entrega de uma biblioteca bem-equipada, com móveis coloridos, um ambiente acolhedor, ver a felicidade das pessoas. E ver como a leitura traz transformações tão fortes como a peça das crianças sobre A bailarina de Cecília Meireles. Isso me faz uma pessoa melhor.”