Biblioteca Cora Coralina

Unidade de Internação de
Menores do Recanto das Emas

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Uma adolescente perguntou a MV Bill: “Como você, que nasceu

e cresceu na Cidade de Deus, escapou de seguir o mesmo caminho

desses meninos?” Sem hesitar, ele respondeu: “Devo isso à minha

mãe, que soube colocar bons livros em minhas mãos.”

 

 

 

Janelas para o futuro

 

“Tentativa de homicídio!” “Homicídio!” “Homicídio… Dois!” “Tentativa!” “Roubo… Com arma de fogo!” “Tráfico de drogas!” “Homicídio!” “Tráfico de drogas!” A rapidez e a espontaneidade das respostas surpreendem.

 

Sentados em meio círculo, na biblioteca da Unidade de Internação do Recanto das Emas (Unire), os oito jovens não dão sinal de constrangimento ao relatar os motivos que os levaram, ainda menores, a cumprir medida socioeducativa em regime fechado.

 

Com idades entre dezoito e vinte anos apenas, que ausências tão fortes teriam carregado em suas vidas até chegar naquele lugar cercado de grades e muros altos?

 

O rapper, escritor e ativista MV Bill sabe muito bem a resposta. Em um debate com jovens da periferia do DF, uma adolescente perguntou a ele: “Como você, que nasceu e cresceu na Cidade de Deus, escapou de seguir o mesmo caminho desses meninos?”

 

Ela se referia aos 17 jovens retratados no livro e no documentário Falcão – os meninos do tráfico, de MV Bill. Sem hesitar, ele respondeu: “Devo isso à minha mãe, que soube colocar bons livros em minhas mãos.”

 

 

Superação dos erros

 

“Renovadora e reveladora do mundo/A humanidade se renova no teu ventre”, diz, em Mãe, a poetisa goiana Cora Coralina, que publicou o primeiro livro aos 76 anos de idade.

 

Como MV Bill, ela tinha uma resposta, e a deixava aflorar em seus poemas. Assim como o rapper, a escritora também usou pseudônimo. Nas livrarias, Aninha, como era chamada na intimidade, é Cora Coralina – nome escolhido pelos internos da Unire para batizar a 44ª unidade do projeto Bibliotecas do Saber.

 

A poetisa, que enxergava o mundo com uma solidária delicadeza e viveu 96 anos, teria ficado feliz com a homenagem. Seus versos revelam uma forte aposta no poder dos jovens. No poema Ofertas de Aninha (aos moços), ela diz: “Creio na solidariedade humana./Creio na superação dos erros/e angústias do presente./Acredito nos moços./Exalto sua confiança,/generosidade e idealismo.”

 

“Quando caí na unidade é que peguei o hábito de ler. Até queria agradecer quem fundou o projeto (a biblioteca), me ajudou muito mesmo”, conta C. R. Prestes a cruzar de volta os portões de ferro, ele vai levar na bagagem sementes recolhidas em histórias como Capitães de Areia, de Jorge Amado, e o diploma do ensino médio, que terminou lá dentro.

 

Ao contar o que ficou dessa leitura, ele vai direto ao ponto que retrata como um dos “capitães” preencheu uma ausência vital em sua vida. “O moleque bateu na casa da mulher que iam roubar e disse que não tinha onde ficar. Aí ela cuidou dele, deu amor, tratou como filho. Na real, ele queria ficar, porque nunca teve aquele carinho, nunca tinha ganhado beijo antes de dormir. Mas seria uma traição e ele foi embora.”

 

Os livros revolvem a realidade e os sentimentos dos internos. Com vinte anos de idade e dois de internação, por homicídio, I. P.* descreve o livro O estudante, de Adelaide Carrara, um dos mais requisitados na biblioteca. “É uma história triste”, resume. “Ele começou a se drogar, aí foi largando a escola. O pai não conseguiu tirar ele dessa vida. E ele foi ficando cada vez mais violento”, reflete o interno, de Planaltina, que sonha com “uma vida sem esses riscos” quando ganhar a liberdade.

 

A leitura permite que os internos façam uma reflexão sobre o que aconteceu em suas vidas. “Isso faz a diferença em todo o processo dentro de uma unidade de internação”, pondera o diretor Maurício José Gomes Leitão.

 

Professor de matemática, desde 2006 no comando da Unire, ele comemora “o êxito que é ter um projeto desses” no sistema socioeducativo. “A biblioteca é uma ferramenta para levar os jovens a uma mudança de perspectivas, a um mundo que estava tão distante deles.”

 

“A leitura ajuda muito a gente no aprendizado, na hora de fazer uma carta pra juíza e pra nossa família”, confirma B. F.*, dezenove anos. Apreendido por roubo, o jovem nascido no Paranoá já escreveu até para o juiz da Vara da Infância e da Juventude pedindo para sair.

 

“Ajuda até pra gente aprender a falar melhor, é bom pra forma de pensar”, completa V. H.*, de vinte anos. Filho de maranhenses, o jovem nascido em Ceilândia conta com os livros para “ocupar a mente” enquanto não sai para recomeçar a vida.

 

Com doze anos de experiência no atendimento a infratores juvenis, o professor José Francisco Eloi conta que usa a biblioteca como um instrumento de catarse. “É um espaço onde o menino se sente bem, por isso vou lá, é hora de tratar da educação.”

 

“Quero tentar”

 

Sem a mesma sorte de MV Bill, que contou com os pais para não ser tragado pelo crime, a maioria chega até ali carregando um fardo invisível – a ausência do porto seguro familiar, agravada por fracassadas passagens em escolas que lhes deveriam garantir um ensino fundamental com a qualidade necessária para seguir adiante. Um dos resultados mais evidentes é a barreira na hora de compreender um texto ou uma fala.

 

C.R. tirou da estante o consagrado Vidas secas, de Graciliano Ramos, presença garantida na grade de atividades do ensino médio, mas esbarra na compreensão das palavras e não consegue terminar. Incentivado pelo professor Eloi, ele lembra o nome do cachorro, “a Baleia”, personagem importante na história do escritor alagoano sobre o drama secular da seca. “É difícil a fala, as palavras… Muito complicado de entender, mas vou continuar”, promete.

 

Depois de ler livros que “falam de superação”, S. N.*, dezenove anos, se convenceu de que é capaz de alcançar o objetivo traçado quando fez um curso de panificação na Unire – “montar um restaurante”. Ele havia abandonado a escola na sexta série, “por problemas” que não gosta de relembrar, mas conseguiu chegar ao ensino médio lá dentro e quer tentar o Enem, de olho em uma vaga em gastronomia ou administração. “Se a pessoa quiser, consegue tudo.”

 

“Dá para perceber claramente a mudança na postura deles e o próprio reconhecimento que têm dessa influência”, avalia Maurício Leitão. “Isso se reflete também na relação com os servidores e com os seus próprios pares.”

 

Para cumprir o Estatuto da Criança e do Adolescente, a segurança interna da Unire é feita por atendentes de integração socioeducativa, como são chamados os profissionais de nível superior que ocuparam o lugar dos policiais. Com as novas normas, a polícia só atua do lado de fora dos muros.

 

A qualificação dos agentes e o incentivo que eles dão aos internos para que adotem o hábito de ler fazem a diferença no trabalho. Flagrado na Ceilândia Norte ao participar do tráfico de drogas, V. H.* decidiu, depois de ler Falcão – Meninos do Tráfico na biblioteca, que não quer para si a dramática falta de futuro retratada com crueza por MV Bill.

 

A história real dos garotos marcados para matar ou morrer nas favelas cariocas ajudou o interno de dezoito anos de idade a traçar uma linha de corte entre o peso do passado e o sonho do presente e a enxergar novos caminhos. “Quero sair daqui e continuar estudando, conseguir fazer o Enem, quero tentar”, revela o adolescente.

 

Menores do Recanto das Emas Granja das Oliveiras - Recanto das Emas, Brasília - DF, 70297-400