A história de Carmen Ganzelevitch Gramacho

 

O desafio de criar bibliotecas para levar o direito à leitura a quem mais precisa está enraizado na trajetória da família de Carmen, que dedicou parte de sua vida a resgatar a história do avô materno, Placido Enrique Vargas Corpas.

 

Professor da Escola Normal de Granada, ele foi um dos quatro mil espanhóis fuzilados na cidade pelas forças golpistas do general Franco, em 1936, junto a conterrâneos como o poeta e dramaturgo Federico Garcia Lorca, uma das primeiras vítimas do ditador.

 

Naquele ano, no Brasil, o educador Anísio Teixeira lançava o livro Educação para a Democracia, para explicar os fundamentos de suas propostas de socializar a cultura, desenvolver pesquisas e implantar um ensino público de qualidade para todos.

 

O “crime” que levou o professor ao paredão da morte um mês antes de completar 53 anos foi o mesmo que fez Anísio ser perseguido pela ditadura de Getúlio Vargas, durante o Estado Novo, e pelo golpe militar de 1964 – defender a utopia de transformar a educação pública em ferramenta de justiça social e desenvolvimento.

 

Placido se alinhou aos ideais republicanos de uma Espanha que saiu da monarquia, em 1931, com metade da população submersa no analfabetismo e no atraso. O alvo dos algozes que o tiraram da sala de aula era a jovem República espanhola, que trabalhava intensamente para colocar em prática propostas inovadoras e democráticas de crescimento.

 

Placido Corpas não conheceu a neta que se dedicaria a espalhar bibliotecas por Brasília. Carmen veio ao mundo no Marrocos, e em 1953, aos oito anos de idade, desembarcou no Brasil com os pais e os irmãos, carregando na bagagem, sem saber, a gigantesca dívida da ditadura franquista que lhe roubou o direito ao convívio com o avô.

 

As novidades na rotina da família num país desconhecido não afastaram a curiosidade de Carmen em torno das histórias dos parentes que ficaram na Espanha. Mas o interesse também não impediu que ela crescesse sem descobrir por que o avô havia sido assassinado pelo sangrento regime do ditador espanhol. Ouvia apenas que ele havia sido fuzilado devido a um “erro lamentável” e que isso “já estava esquecido”. “Meu pai, às vezes, tentava contar o que havia acontecido, mas minha mãe não deixava. Acabei entendendo que era porque ela sofria com as lembranças.”

 

Tempos depois, Carmen concluiu que a solução seria revolver as raízes além-mar. De volta à Espanha 35 anos depois, no entanto, ela esbarrou na mesma explicação lacônica sobre a morte do avô durante as visitas que fez aos tios em Granada. A resposta que tanto procurava só chegaria oito viagens depois. Com a ajuda do marido, o economista e pesquisador Amilcar Gramacho, ela se embrenhou em meio às pastas de mais de quatro décadas de história guardadas nos arquivos públicos e jornais espanhóis, e procurou compatriotas que sobreviveram à guerra civil.


As primeiras pistas estavam entre os 25 milhões de publicações, manuscritos, documentos oficiais, desenhos, partituras, fotografias, mapas e outras preciosidades que atraem estudiosos e turistas de todas as partes do mundo para a Biblioteca Nacional da Espanha. “Havia mais de mais de quatro mil livros somente sobre a Guerra Civil e os acontecimentos em Granada, onde as forças do general Franco chegaram primeiro, e o nome de Placido era mencionado nos relatos”, conta Amilcar.

 

As informações ajudaram a puxar os fios do silêncio que atormentava a família. “Descobrimos, nos livros, que havia muitos arquivos espalhados pelo país com registros daquela época. Um deles estava no Ministério da Educação espanhol, que mantinha os históricos de vida completos de todos os professores do ensino público.”

 

Comparando a documentação, eles se depararam com os métodos criminosos do regime de Franco. Para justificar o fuzilamento, o governo abriu processos contra Placido depois de assassinar o professor. “Outro abuso que cometiam era confiscar os bens das famílias das vítimas. O ditador responsabilizava os opositores pelos custos da guerra civil que ele havia alimentado.”

 

Enquanto buscavam a verdade, Carmen e Amilcar descobriram que o silêncio dos familiares era compartilhado por toda uma geração, traumatizada pela guerra entre irmãos que deixou mais de um milhão de mortos. A herança dessa destruição encobria a dor com as vidas e os ideais sepultados pelos fuzis franquistas.

 

Atraído pelas perspectivas de avanços nas propostas da Republica de los Maestros (República dos Professores), Placido Enrique havia entrado, com o filho mais velho, em uma das missões pedagógicas criadas pelo novo governo para levar leitura, arte, cinema, teatro e outras ações culturais à grande massa de cidadãos analfabetos da área rural que o regime anterior mantinha à margem da educação.

 

A Republica de los Maestros sabia que o sucesso das missões dependeria de um decisivo investimento na valorização dos professores. As primeiras medidas foram para garantir melhores salários e condições adequadas de trabalho. Ao mesmo tempo, milhares de escolas e bibliotecas começaram a ser erguidas pelo país, parte do sonho de eliminar a desigualdade que pesava principalmente sobre a população do campo.

 

Mas a grande maioria de espanhóis cujas armas, como as de Placido, eram os livros, nem teve tempo de comemorar as conquistas, esmagadas pelo golpe militar do general Franco. Apoiado pelo governo nazista do alemão Adolf Hitler e pelos fascistas da Itália dominada por Benito Mussolini, o ditador soterrou o esforço dos educadores sob os escombros de uma guerra civil que se alastrou até 1939 e o manteve à frente do governo até sua morte, em 1975.

 

A quebra do silêncio fez de Carmen a primeira espanhola residente no Brasil a obter reparação pelos crimes da Guerra Civil. No documento oficial guardado pela família como relíquia, o governo da Espanha reconhece que “D. Placido Enrique Vargas Corpas tem direito a obter a reparação moral (…) mediante a qual a democracia espanhola honra aqueles que injustamente padeceram perseguição ou violência durante a guerra civil e a ditadura.”

 

O resgate da história do avô que morreu defendendo a democratização do saber fortaleceu o compromisso de Carmen com o projeto de expandir o conhecimento em comunidades sem acesso a uma biblioteca. “Meu avô via nas missões pedagógicas e no programa republicano a solução para o desenvolvimento da Espanha, que tinha um índice tão alto de analfabetismo. Hoje, também vejo que o crescimento do Brasil depende de muito investimento na educação e de incentivo à leitura”, compara.

 

Durante todos os anos de funcionamento do projeto Bibliotecas do Saber, Carmen manteve um diário onde registrou desde o nascimento da ideia até a emoção de participar das festas de inauguração de tantas bibliotecas, a maioria delas na periferia das cidades do DF e muitas em áreas rurais distantes. Você pode acompanhar seus relatos aqui, na Parte II de “A vida com os livros – mapeamento afetivo das Bibliotecas do Saber”.