A meta inicial era montar 20 bibliotecas em áreas

carentes, com livros doados pela população do DF.

Mas o projeto cresceu tanto que, em nove anos de atividade,

as equipes de voluntários selecionaram 16,4 milhões de livros,

que permitiram a criação de 182 bibliotecas

 

 

 

A história das Bibliotecas do Saber

 

Carlos Drummond de Andrade confessou ao jornalista Geneton Moraes Neto, em 1985, quinze dias antes de partir deste mundo, que fez de sua poesia “um sofá de analista”. Na rica conversa ao telefone que acabou se transformando em um precioso livro – O Dossiê Drummond –, o poeta mineiro lamentou a falta de estímulo intelectual às novas gerações e o baixo consumo de livros no país. E disse que conseguiu na vida o maior prêmio que poderia desejar: “dizer coisas que mexiam por dentro e buliam comigo”.

 

As coisas que buliam com o poeta também afloram nos relatos de crianças e adultos que compartilham o conhecimento colocado à altura de suas mãos nas prateleiras das 182 bibliotecas construídas pelo projeto Bibliotecas do Saber. Como se estivessem saindo do “sofá de analista” de Drummond, esses ávidos leitores pouco divergem ao descrever as sensações de viajar por um mundo que não imaginavam existir.

 

O roteiro para as incríveis viagens descritas com empolgação pelos usuários das bibliotecas começou a ser traçado em 2007, num encontro entre os empresários Antonio Matias, então diretor operacional da Rede Gasol, e Carmen Ganzelevitch Gramacho, que na época comandava o Conselho da Federação das Associações Comerciais do Distrito Federal. Eles trocaram ideias sobre as dificuldades que enfrentavam para contratar colaboradores com capacidades básicas de escrita.

 

O paraibano que chegou a Brasília aos dezesseis anos perguntou à espanhola criada em terras paulistanas se esse problema não seria decorrente da falta de leitura e de estímulo intelectual – o mesmo que Drummond havia destacado em sua última entrevista. Ambos concluíram que sim. E decidiram, naquele momento, se unir em torno do projeto de levar bibliotecas aos moradores das regiões que mais carecem dessa ferramenta do saber no Distrito Federal.

 

A meta inicial era modesta. “Pensamos em montar ou revitalizar vinte bibliotecas, com livros doados pela própria população. Para fazer a propaganda, espalharíamos cartazes na rede de postos de gasolina”, conta Matias. Mas os trabalhos não poderiam começar sem um profissional especializado no conhecimento e seleção dos livros. “E agora, José?”, indagaria Drummond.

 

A solução veio com a chegada ao grupo de Iza Antunes, então presidente da Associação dos Bibliotecários do Distrito Federal. Era a peça que faltava para fazer a ideia acontecer. “Carmen e Iza formam o coração do projeto. Sem elas nada disso teria sido realizado, não estaríamos comemorando a entrega de tantas bibliotecas em comunidades que ainda não haviam recebido essa atenção”, avalia Matias.

 

Iza Antunes chegou na hora certa. A campanha nos postos de gasolina superou as expectativas e em apenas trinta dias o volume de livros doados abarrotou um dos galpões da rede de combustíveis. “A adesão da comunidade surpreendeu. Recebemos cerca de 400 mil livros somente naquele primeiro mês. Sem Iza no comando técnico e sem o grupo de voluntários treinados para a tarefa, seria impossível selecionar tudo isso”, lembra Carmen Gramacho.

 

A arrecadação recorde de livros no primeiro mês permitiu uma sucessão de inaugurações de bibliotecas. Tanto que, em cinco anos, fez a meta inicial de vinte unidades saltar para cem, e chegar a 182 ao final de nove anos. Com uma equipe de trinta bibliotecários voluntários, Iza Antunes entrou em campo para selecionar todo o material. O mutirão permitiu que pouco tempo depois os alunos do Centro de Ensino Fundamental do Lago Oeste, na zona rural de Sobradinho, escolhessem o nome da Biblioteca Recanto da Leitura e ajudassem a descerrar a placa da primeira unidade do projeto.

 

O verbo amar

 

“O que pode uma criatura senão/entre criaturas, amar?”, disse Drummond, no poema Amar. A força do verbo expandiu os contornos de um mapa afetivo que ultrapassou as fronteiras do Distrito Federal. Parte dos livros doados diariamente pela gente solidária de Brasília destinou-se a levar o mundo traduzido nas letras a leitores das cidades de Formosa, Valparaíso, Novo Gama e Santo Antônio do Descoberto, no entorno goiano.

 

O projeto viajou também para cidades mais distantes, em comunidades do Rio de Janeiro, de Cascavel, no Ceará, e Davinópolis, no Maranhão. Em parceria com a Marinha, também chegou a populações ribeirinhas da Amazônia e do Pantanal, nas Barcas do Saber, instaladas nos navios de assistência hospitalar.

 

Em nove anos de atividades, as equipes de voluntários treinados em cursos da Associação Brasileira de Biblioteconomia avaliaram e selecionaram 16,4 milhões de livros. Na triagem, cerca de 30% das publicações foram consideradas inadequadas e descartadas. A qualidade dos 70% restantes, no entanto, permitiu que se abrisse uma nova rota de saída. Além das bibliotecas, quarenta Estantes do Saber foram montadas em salas de atendimento especializado a alunos com altas habilidades da rede pública, na faixa dos sete aos dezessete anos.

 

Nos mutirões de triagem, a equipe não imaginava que o projeto chegaria tão longe. Até o momento de festejar cada inauguração, duas palavras determinavam os rumos: planejamento e técnica. Sem elas seria impossível atingir o padrão desejado. Tudo tinha que ser feito de acordo com as necessidades da comunidade e as normas da biblioteconomia, como explica Iza Antunes: “Tem que haver um interesse real da instituição. Se a direção não garantir que vai disponibilizar recurso humano para gerenciar a biblioteca e que vai realizar ações de incentivo à leitura, não podemos seguir adiante.”

 

Para passar pelo crivo de Iza o local precisava ser adequado e destinado exclusivamente à biblioteca. “A sala exclusiva é fundamental para a criação de um ambiente que acolha os livros e incentive a leitura e a pesquisa. Adotamos um padrão visual com estantes e mesas coloridas, além de um cantinho para o computador.” Se essa área não existia, o projeto ajudava a criar. A equipe avaliava a estrutura do local, identificava as necessidades de reformas e punha a mão na massa. “Em algumas escolas da área rural partimos do zero mesmo, construindo as salas para que a biblioteca pudesse ser instalada.”